segunda-feira, 16 de julho de 2007

Louca





Na minha casa abandonada
Há vidraças partidas
E estilhaços que se me fixaram no peito...

Pelas portas escancaradas
Corre o vento
Fustigando-me a alma.
Traz consigo o teu perfume
E a tua imagem!

Componho uma personagem de louca
Sentada na soleira da porta
E prometo vestir,
Todos os dias,
O meu rosto de cores diferentes,
A minha alma de tristeza ou alegria,
O meu coração de amores ou desamores!
À laia de palhaço
Chorarei rindo,
Rirei chorando
Na saudade da tua cor!

segunda-feira, 9 de julho de 2007

O meu presente


Recebo um presente do Universo,
O meu passado,
E no presente encontro apenas o eco do que fomos!
Recordo as tuas mãos nas minhas,
A tua boca descobrindo a minha,
A tua voz traçando conquistas
Dentro da minha escuridão.
Enlaço-te na tarde mágica da sedução
E ouço o sorriso límpido do Sol
Traçando um caminho que percorreste dentro de mim!
Assola-nos o desejo
E no teu radioso sorriso
Entras no meu sonho...

Cruzas o instante de magia
No momento em que os teus lábios
Pousam nos meus!
Os nossos caminhos separam-se,
Saíste do meu presente,
Mas sou feliz sabendo que existes.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Vem






Vem deitar-te no meu regaço,
Vem ouvir o deslizar das ondas nos meus lábios
Contando histórias de amor e paixão,

Vem...
Deixa a tua pele estremecer,
Deixa que meus dedos deslizem,
Destilem suspiros no contorno suave de teu rosto...
De lábios húmidos,
Ansiosos,
Desejo afogar-me nos teus...

Escorrego pelo teu peito ternuras de penas macias,
Cisnes brancos navegando no teu desejo,
E oiço o teu coração sobressaltado
Disparar na sedução!
Procuro o toque macio das tuas mãos
Mas elas saboreiam outro silêncio!
Segredo a mim mesma:
Saudade,
Passeia-me na sua alma,
Solta-me dentro do seu não ser!

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Vou riscar o teu nome


Da Lua Cheia
Vou fazer o meu universo,
Da Lua Nova, a minha passagem por ele,
E da minha janela,
Em forma de Quarto Crescente,
Vou deixar de te espreitar!
Da expressão da saudade
Vou riscar o teu nome,
Abrir os meus olhos para a brisa fresca da noite
E sorver as pequenas gotas de amor
Que o orvalho do meu Verão
Me proporcionar!
As minhas mãos,
Apertando as tuas de longe,
Vão soltar os teus dedos,
Um a um,
Até à Liberdade!
A minha boca trespassando a distância,
Vai sorrir-te
E soltar-te os lábios!
A tua alma reconhecer-me-á,
Enlaçada na escuridão de uma noite mágica,
Invadindo a outra face da saudade...
Quando ambas se cruzarem serei feliz!

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Páginas


Faço deslizar a minha vida
Entre o tempo e a eternidade,
No universo da tua pele.
O meu mundo perde a forma,
Os horizontes que a minha vista alcança,
Oblíquos e desfocados,
Estão em rota de colisão
Com a amálgama dos meus sentires...
Brotam da minha pele máscaras astuciosas,
Tolamente enformadas no desejo!
A tua pele cruza-se com a minha
No brilho misteriosos da Saudade,
E, num labirinto de carícias,
Possuo-te numa história inacabada,
Escrita pelo punho solitário do Amor.
Finjo-me analfabeta
E folheio o teu prazer
Em perguntas sem resposta,
Materializadas em sorrisos inacabados
De uma paixão incompleta,
Desenhada a ferro e fogo
Nas páginas nuas da minha alma!

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Porta da saudade


Perdi-te no início dos tempos,
Em fins recomeçados,
No brilho das estrelas adormecidas!
Prendi-me ao teu sorriso,
Aos meus sonhos,
Às minhas cumplicidades...

E na força poderosa das minhas tardes,
Fui cúmplice dos teus receios.
Envolvi-me na lava da nossa explosão
Em cores e odores de vulcão
Adormecido no meu ventre!
No silêncio da minha paixão,
Escondida num mundo outro,
Conjuguei todos os verbos,
Em tempos e modos desconhecidos
De entrega total!
Fecho o tempo,
Corro ao teu pensamento,
Desço ao meu,
Procuro a porta da Saudade...

Já a franqueei!

sábado, 9 de junho de 2007

Nas brumas do sentimento


Perdi-me no teu labirinto,
Não decifrei o código secreto da tua alma...
Como uma chama viva,
Dancei em teu corpo,
Envolvi-me em mistério e fascínio...
Para te seduzir!
Perfumei-me com os teus enigmas,
Confundi-me nos teus sussurros,
Afundei-me nos teus desejos.
Perdi-me na bruma dos sentimentos,
Perturbei-me,
Confundi-me
Na sensualidade das tuas mãos!
Cada dedo
Marcou na minha alma
Uma senha secreta que só tu sabes
E na magia do meu mundo
Voei contigo,
Presa às tuas asas de anjo,
Impulsionada pelos nossos beijos!
No ar rarefeito
Tornei-me frágil!
Envolta em sentimento,
Lancei-me na descida,
Atravessei as dúvidas,
Agarrei-me às incertezas,
Aterrei na sensatez...
Dei-te a mão na saudade!

domingo, 3 de junho de 2007

O meu tempo





A minha vida chove
Num mundo onde entrei
Sem licença para amar!
Apertei-me num canto,
Mostrou-mo o amor,
E não sei fugir.
Fez-se abrigo de loucura,
Respiração acesa,
Emoção gritante!
Inebriada,
Em cada êxtase
Deixo-me ficar...
O deleite adormece-me nos teus braços...
De abandono!
Sofri,
Sorri,
Esperei,
Desesperei!
Refugio-me na alcova da Saudade,
E sorvo-te em cada golfada de ar fresco!
Olho para trás!
No roteiro da minha vida,
Sinto-te cada vez mais perto...
Colho-te,
Em instantes de entrega,
Livre na ilusão,
Vazia na lógica...

Mas, num Universo onde a razão é a minha,
Tenho-te em cada encontro adiado,
Na solidão obscura do meu tempo em ti!

terça-feira, 29 de maio de 2007

Posse


Visto-me na sumptuosidade da Lua
Com tecidos de sombra e loucura!
Solto convites surdos,
Caprichos fantasiosos
De secretos anseios...
Pego fogo à pira das emoções
Na sede de te querer,
Na fome de te possuir...
Penso-te no arrepio da minha pele,
Possuo-te no desassossego da minha saudade invertida!
Gotículas de prazeres mútuos fogem de nós,
Instalam-se na distância,
Unem-se para lá das imposições.
Sinto o meu amplexo fluir sobre ti,
As bocas sofridas,
Entreabertos,
Os lábios gritam no instante sublime
Do prazer consumado...

Na minha alienada cegueira,
A inquietação da tua ausência esbateu-se
E ,na tentação dos sentidos,
Contemplei-te através das doces carícias que te entreguei,
Da união que projectei além de nós!

sábado, 26 de maio de 2007

Não vieste




Penso em ti,
Mistério de memória pintada em minha alma,
E esqueço-me de mim,
Respiro-te no Sol que me aquece
E aspiro-te nos aromas da saudade!

Procuro-te por entre as árvores do nosso jardim encantado,
Deambulo entre ramos e lianas que me impedem o avanço,
Tropeço no emaranhado das raízes que se libertam da terra…

E o gemido das folhas secas esmagadas pelos meus pés
Soa-me ao teu nome!
O perfume das flores sussurra-me que virás…
E os fracos raios de Sol
Penetrando a sombra
Desenham no chão o meu caminho para ti!

Cheguei,
Esperei
E desesperei na ânsia de ti!
Despi-me do desgosto,
Vesti-me de ânsia e carícias
E ofereci-me às tuas mãos que não vieram.
Soltei o meu desejo
E fiz dos meus dedos os teus.
Escondida entre os ramos da paixão,
Fui onde tu não quiseste ir…

Amei-me apaixonadamente
Num momento que tu não viveste!

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Pacto




Para além dos meus sentidos
Retenho o teu sorriso,
Tacteado na avidez do desejo...

As minhas entranhas enlouquecidas
Guiam-te os movimentos
Sedentos de luxúria!
Os nossos lábios calam-se,
Colados,
Molhados...
Perdida em ti,
Procuro-te a alma,
Mas és tu quem transpõe a minha...
Aí te aninhas
E te fundes comigo!
Alucinada na minha paixão
Penso selar um pacto de Amor.
A mente sossega,
O alvoroço dos sentidos se acalma...

E de mansinho,
Ao compasso da serenata da lua,
Te entrego a minha essência!
Vais-te!
E eu percebo na Saudade:
Foi na minha pele latejante
Que deslizaste a pena
Com que assinaste o nosso pacto!

terça-feira, 15 de maio de 2007

Roda do tempo




Perdida,
Entre o meu mundo e o teu
Encontrei a roda do tempo.
Olhei para um lado,
Olhei para o outro...
Ninguém!
(só a saudade espreita!)
Aproximei-me!
Voltei a olhar!
Ninguém!
Num só impulso,
Fi-la rodar
(ao contrário!)
E recuei no tempo.
Entre lençóis volta a ser Verão!
Enlaças-me,
Saboreio o paladar quente da nossa paixão,
Derreto sob o calor da tua língua,
Evaporo-me sob as tuas carícias de fogo!
Nesses momentos escaldantes
Transpiramos emoções,
Deixamos arder a lucidez
Nas chamas do prazer
Que em nós lavram!
A luxúria acena-nos do corpo de cada um
E loucamente nos entregamos,
Colamos,
Fundimos
Incansavelmente...

Mas, lentamente,
A roda do tempo dá conta do erro,
Encontra-se,
E volta a chover!

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Fóssil



De alma destroçada,
Não me conheço.
Deambulo por estas praias da vida,
Mas apetecem-me os rochedos mais além!
Olho o mar revolto,
O céu pintado de memórias
E apanho a saudade caída a meus pés!
Deambulo descalça!
O caminho que demando
É feito de areia movediça!
Cheira a mar,
Mas é lodo.
São os pensamentos de sal,
Temperando a minha recordação,
Que fazem as gaivotas soprarem maresia das suas penas!
Enquanto me afundo,
Sinto-te,
Olhando as marcas que deixaste nas minhas areias...

O vento sopra,
Sopra,
Tenta apagar as tuas pegadas...
Fossilizadas!...

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Chave da alma




Sopra forte
O vento da saudade...
Polvilhando-me de resquícios de ti...
Refugio-me na alma
E tranco-lhe a porta...

Devoro,
Em lautos banquetes,
Doses maciças de desrecordações,
Diante das cortinas cerradas do sonho!
E bloqueio o pensamento!
Deito-me com as lembranças,
Pensando que estou só;
Aqueço-me com o desejo,
Pensando que não te quero;
Faço dormir um corpo faminto,
Pensando que está cansado...
Mas dentro da minha alma permanecem,
Teus aromas,
Teu sabor,
Teus beijos molhados...

Contraio os músculos do pensamento,
Desprendo-me das memórias,
E alieno-me no desejo e na loucura!
Dentro de mim estás tu,
Fogo que me consome...

Tenho que sair de mim...

Onde deixei a chave?!

quinta-feira, 3 de maio de 2007

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Em parte nenhuma



Recordas a tarde em que entrei no teu sonho?
De que cor me pintaste?
Que forma me deste?
Que nome procuraste no vazio dos teus arquivos?
Em instantes de eternidades desconhecidas
Recordarás os meus suspiros
Espalhados pela tua pele?
No meu reino da saudade,
Baralho a ilusão,
Perco-me no teu céu
E nas tuas memórias...

Soprei da minha vida o teu perfume
Mas o vento trá-lo de volta!
Calada,
Nas minhas alucinações,
Sei que ainda lembras o nome
De quem não existe!
Dentro de ti,
Saboreia
A doçura das carícias que te não faço,
Os beijos que te não dou
E chama por mim!
Estou em parte nenhuma...

E tu dentro de mim!...

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Serviço postal


Espero,
Olhando a linha do horizonte,
O nascer do meu sol...
No mar da minha alma,
O sol se pôs,
Ontem e todos os dias,
Deixando-a negra,
Porque a Lua Nova me castigou.
Hoje este mar mágico,
Repleto de sentimento,
Separa-me de ti mas,
Na serenidade destas confidências,
Consigo tocar-te,
Cada vez que mergulho nas águas da Saudade,
E respirar-te
Na maresia de oceanos de desejo!
No espelho das águas,
A brisa desenhou o teu rosto
E pintou-o de ternura!
Esta manhã,
Ofereço a colina dos meus seios ao teu amanhecer,
Sopro um beijo perfumado de paixão
E ele percorre a distância entre nós,
Embrulhado nas palavras que te envio,
Num serviço postal inexistente!

quinta-feira, 19 de abril de 2007

5 BLOGS THAT MAKE ME THINK



Foi com muito orgulho que me vi nomeada com o "thinking blogger award", um dos 5 blogs que faz pensar.
Agradeço ao "sonhador em full time" (Jonny)e às "palavras soltas"(Mário Margaride) por terem nomeado o blog poesiamgd como um dos que os fazem pensar.

É bom sabermos que nos apreciam as letras que, quantas vezes, lançamos ao papel sem pensarmos, nós próprios, na profundidade com que marcam os outros.

Complicado é escolher agora 5 blogs para receberem o prémio também. Gosto de tantos que leio que se me torna difícil decidir.
Aos que não nomeio, as minhas mais sinceras desculpas.

Estes nomeados devem copiar o selo correspondente e afixá-lo na barra lateral dos seus blogs. De seguida devem nomear os cinco blogs que escolheram e fazer um post a nomeá-los.

Os nomeados são:

alquimista
eu sou louco
poesia portuguesa
poeta eu sou
tok


 

Escrita

Lês-me a alma inquieta,
Passeias sobre a minha pele macia,
Percorres o meu querer
E traças o meu sorriso
No desassossego de cada carícia.
Guio-te as mãos na procura das minhas formas,
Alvoroço-te os sentidos
No calor da paixão
Que a ponta dos teus dedos anima,
E adivinho os teus anseios
Nas letras da palavra saudade!
Procuro-te em cada uma,
Sonho-te nas vírgulas da minha vida
E escondo-me nua
Na seara do meu desejo!
Sonhas-me em abraços de ilusão ,
Possuis-me em cada texto que te deixo
E transpiras devaneios
Sob lençóis de papel,
Gozando em amplexos escondidos em cada linha!
Estremeces em cada afago de vocábulos,
Beijas os meus lábios de silêncio
E escutas o amor gemendo nas entrelinhas!
Toco-te com fonemas e grafemas,
Perfumo-te de segredos
Num orgasmo de saudade!

terça-feira, 17 de abril de 2007

Melodia a quatro mãos


No silêncio da tarde,
Soltas melodias de encantar
Na dança dos teus dedos...

Nos teus lábios,
Os acordes perfeitos
Trazem a voz das estrelas
Que aconchegam o descanso do meu corpo
Inventado em ti!
De corpos colados,
Pairam sobre mim sussurros de mãos,
Fluídos trocados,
Mistura de línguas e magias...
E os lábios,
Escorregando de paixão,
Anulam o espaço além de nós!

As nossas quatro mãos derramam-se,
Entranham-se em suspiros,
E o diapasão dos nossos corpos
Afina o ritmo desta valsa,
Composta na pauta da minha saudade.
No instante em que nos entrelaçamos,
Numa orquestra de emoções,
E tocamos de improviso
Na sintonia do desejo,
Eu invento a música que só tu saberás reger!

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Adeus


A minha madrugada
De prazeres inventados
Incendeia-se na luz real!
Ardem os laços que nos ataram,
Perco-me no labirinto das vielas que me levaram a ti!
O mapa que inventei para te encontrar fez-se cinza
E a rua por onde te passeei
Desapareceu ao fundo da minha saudade.
Mas não ficas perdido
Nesse mundo que não conheces.
Os momentos acompanhar-te-ão,
As palavras que aqui lanço
Levam-te a minha mão...
Para dizer adeus!...

sábado, 7 de abril de 2007

Pôr-do-sol



Preencho o meu pôr do sol,
As minhas horas,
Os meus séculos
Com saudades de fim de tarde!
Vens sorrindo estrelas
E anuncias luares de Janeiro...
Contemplo-te deste lado das horas tardias
E vejo-te no espelho da ausência.
Para lá do infinito da minha alma,
Construo a ponte que me leva a ti
E agarro a mão
Que me faz atravessar oceanos de carinho!
Na orla do meu caminho para ti,
Rompo a queratina do tempo
E a cartilagem da dor,
Toco-te a serenidade,
A tua linha de horizonte que desconheço
E encontro afagos,
Vontade de encher vazios,
Asas de ternuras
Entranhadas na ausência!

terça-feira, 3 de abril de 2007

Saudade


Abro os braços à noite,
Ao alvoroço sufocante
Da minha pele passeando em ti...
Estendo as asas da saudade,
E liberto o carinho com que te enlaço!
Prendo-te no fio de seda que solto do meu abraço
A caminho de nós...
Roço-te o ventre com a língua do pensamento
Impulsionando o teu aroma
Para os beirais do meu desejo...
Desvendo-te gotas de prazer
Escorrendo em mim
E desfruto-as no feitiço das minhas palavras!
Sugo-te o fulgor da alma
Suspensa nos lábios
E beijo cada pingo de mel
Que se te afunda na pele!
Cheiro o calor da tua paixão
Queimando a minha voz
E envolvo-te no vazio da saudade!
Sucumbo à ternura inflamada...
E fujo de mim!

domingo, 1 de abril de 2007

Ausência




Abraço a doce saudade,
Do teu extasiante sol poente em mim...
Ofusco-me nas centelhas de prazer
Que as tuas ousadias lançam ao céu
E seduzo-te no planeta das emoções,
Na galáxia da minha paixão!
Estrelas reluzem e cintilam no teu toque,
A pele da minha alma suspira
Ao compasso da voz do teu amor em mim,
Qual reflexo da essência do tempo!
Copio uma fantasia
Lida nas estrelas
Que espalhaste no céu do meu desejo...
Despes-me em carícias enfeitadas de lírios brancos
Enlaçadas na luz dos teus dedos
E nascem no meu corpo
As mãos da tua alma...
Acaricias-me em conquistas mágicas
De encantamento e perdição...
Caminho ao encontro da minha ilusão
E encontro-te dentro de mim!

sexta-feira, 30 de março de 2007

Confessa


Espreito-te no longe,
Chamo-te entre as brumas do tempo...
Mas as penumbras da memória,
Perpetuada pelo deslizar dos meus dedos no papel,
Escondem-te atrás de ti!

Vem...
Mostra-te no teu sorriso,
Perfuma-me com a tua voz quente,
Fala-me do tempo do Amor
E volta a dar-me a mão!
Leva-me contigo para dentro do teu abraço
E da minha fantasia!
Confessa ao meu ouvido
Quantos beijos ofereces ao meu silêncio!
Sussurra-me o prazer do sonho
Que espreitas em mim!
Beija as minhas sensações
De pele perfumada,
Amanhecida
Na alvorada tranquila
De um livre divagar...

Diz à lua
Baixinho, baixinho...
Palavras de desejo...
Por mim!
E enfeitiça o meu sono!

quarta-feira, 28 de março de 2007

Essências


Entre os meus cabelos desalinhados
Encontro os teus dedos
Macios
Sussurrando na minha pele
Carícias esquecidas!
Dentro dos meus olhos
Encontro o murmúrio
(e o silêncio!)
Do teu rosto!
Pestanejas sorrisos que me aquecem a alma
E estendo-te os meus lábios de fogo
Numa prece de caminhos trilhados
No meu corpo
Pelo teu...
Ainda procuro a boca que me desnudou
E, entre lençóis brancos,
Desceu a colina dos meus seios
E se precipitou na foz do meu prazer...

No meu corpo vazio de ti
Ouve-se o eco dos sons
Que no silêncio do quarto nu
Entoámos em horas só nossas...
E, na solidão das minhas coxas,
Evaporam-se essências esquecidas,
Borbulhantes de loucuras a dois!

segunda-feira, 26 de março de 2007

Emoções


A manhã rende-se ao vento Sul...
Sem pudor, veste-se de negro...
Sensual, busca a Lua
Mas ela foi-se!...
O sol brilha...
Num trono de diamantes,
Ofereço o meu corpo às tuas mãos...
Centelhas de emoções
Gritam o teu nome
Mas a distância amanheceu em ti!
Perco-me nas minhas ousadias,
Perco-te nos teus êxtases
Lançados à saudade,
Abraçados a outros sonhos!
Estendo as minhas mãos
E apenas encontro fios de dor
Que caminham para o Infinito!
Tacteio a tua boca
E encontro pétalas de vento
Correndo para o Paraíso!
E a minha voz cruza os céus,
Toca-te a pele,
Sussurra ao teu ouvido
Que habito a Noite
E o Silêncio...
E nem as mãos do meu pensamento
Te conseguem afagar!

sexta-feira, 23 de março de 2007

Manto


Deixo escorrer os olhos pelo tempo...
Revivo emoções...
Inundam-me a alma em voo livre,
Evaporam-se-me na pele!
Aspiro os resíduos sólidos,
Pedaços de ti,
Devaneios colhidos numa Primavera serôdia!
Voo na tua ausência
Em crepúsculos atrasados...
Por instantes,
Devaneios estonteantes
Acariciam-me o rosto.
A brisa dos sentimentos
Lança-me no rosto
O aroma da tua presença...
Mas a corrente das sensações
Afoga o coração,
Destrói os diques do amor,
Arrasta a afronta e o despeito,
Trespassa-me a alma,
Salta a colina da paz,
E desce aos vales da dor!...

E não há fantasia,
Arrepio
Ou suspiro
Que desagúe na minha noite
Vazia de coxas perfumadas de maresia!
E o meu querer veste-se de vulnerabilidade!
Nua, perante a tua noite,
Deixo cair sobre mim
O manto vago do fim!

quinta-feira, 22 de março de 2007

Início do " Livro da saudade"


Terminou com o poema "desilusão" o conjunto de poemas a que chamei "livro do sonho". O sujeito poético, na impossibilidade de continuar a viver um verdadeiro amor que entretanto terminou, propõe-se partir para o mundo do sonho onde reviverá esse amor e essa paixão. Parte, avisa logo no início, mas não parte só, leva consigo tudo o que já sentiu. Desta forma se inicia o “conto”. O primeiro poema é precisamente “partida”. A “visão” prolongar-se-á por poemas contando essa vida imaginada. Até um dia em que o sujeito poético se dá conta que a luz se extinguiu e as lágrimas congelaram. Decide acordar do sonho e percebe, então, que a personagem principal alvo do seu sonho não é ou nunca foi aquele que sonhára. Termina o sonho. Fui publicando neste blog, um a um, os poemas mas, para quem quiser entender os poemas como conjunto, coloco-os agora com a devida sequência num blog em anexo a que chamarei "livro do sonho".


Inicio hoje um outro conjunto a que chamarei "livro da saudade".


O sujeito poético iniciará a sua viagem através da saudade, tentará explicar porque foi trocado por outra flor mais cuidada. A viagem (saudade) prosseguirá, ora mais calma, ora mais conturbada, para terminar numa pantomina de palhaço e, por fim, num dobrar de sinos. A Saudade arderá numa pira e as cinzas serão espalhadas pelas águas do oceano. Terá terminado a viagem!



No teu jardim



No meu silêncio cheio de nada
Oiço o que a tua boca cala
Mas o teu corpo grita...
Dos teus dedos pinga o mel
Que eu não colho!
E a vertigem nua,
Ceifada na minha intimidade,
Se vestiu de prazer
Em outras entranhas...
No teu jardim, a brisa corre,
Arrepia as minhas pétalas
De flor singela...
Mas só a flor repleta de néctar
Atrai o sol
E as borboletas que te nascem nos lábios
No canteiro que mais cuidas!
Ela estremecerá sob as tuas mãos
E, na suavidade do arco-íris,
Aspirarás o exotismo da sua voz...
Nas minhas pétalas selvagens
O pudor desenhou um não...
Veio o vento...
Veio a chuva,
Desfolhou-me!
No espaço do teu jardim a noite caiu,
Definitivamente!...

quarta-feira, 21 de março de 2007

Desilusão




Na fragilidade de um momento
Escrito pelo tempo sem tempo,
Abri estradas de sentimentos
Que te deixei percorrer...
Partilhámos viagens,
Segredos,
Mistérios...
A tua língua percorreu o caminho dos meus abraços,
A tua ansiedade desceu à minha fragilidade
E, arrepiados,
Excitados,
Tocámos a mesma melodia,
Saciámos a avidez dos corpos que se queriam,
Em prazeres descobertos...

Quando as tuas mãos,
Tocando a minha paixão,
Me abriam num soluço,
Eu voava
Numa leveza de sentidos decifrados!
Mas, para lá do teu peito,
Extinguiu-se a luz!
Escureci nesta minha noite fria...
O frio da desilusão assobia nas minhas entranhas...

As lágrimas gelam
E congelam-me a alma!
Já não estás aí,
Já não és,
Ou nunca foste,
Aquele que no sonho eu criei!

segunda-feira, 19 de março de 2007



Entoo uma canção de amor
Em cada murmúrio...
Cada melodia saída dos meus lábios
É um convite à luxúria...
Moves-te em movimentos graves e agudos
De uma partitura que me ensinas,
Feita de toques e carícias...
O laço que a nossa música teceu em nós
Prendeu-me...
Desataste-te!
Persistiram através dos tempos,
Num céu de olfactos,
Os aromas sensuais!
Aspirei-os para além do tempo
E da saudade...
O acaso nos juntou,
Mas a voz do silêncio
Roubou-te das partículas do meu sonho
E eu fiquei só,
Relembrando apenas os momentos da partida!...

domingo, 18 de março de 2007

Pétalas desfolhadas



Sonho contigo à luz da minha saudade,
Sonho mundos que não conheces,
Invento momentos...
Apaixonada, voo na tua essência,
Fecho a janela do mundo...
Abro-te a alma,
Deixo-te ver-me!
Dos meus lábios sopro ventos favoráveis
Para que navegues à bolina no meu corpo!
Desliza pela minha pele,
Esquece a linha do horizonte
Que te diz adeus!
Segura as minhas mãos entre as tuas,
Vem, antes que o Outono
Desfolhe as minhas pétalas...
Macias e leves
Suspiram de saudade!
Vem sentir o seu perfume,
Deixa que as teus sentidos as despertem,
Toquem e excitem...
Deixa que as tuas mãos me adormeçam
No teu chão quente,
Numa Primavera por mim inventada
Em jardim de rosas perfumadas!

sexta-feira, 16 de março de 2007

Mundo mágico




No camarim da minha dor,
Revejo-me na exiguidade do teu sentir!
Ferida até ao âmago do tempo,
Desenlaço as mãos do sonho,
Do não ser,
E pago o ónus de te querer
E não ter!
Recolho-me à escuridão da paz,
À sombra insinuante da noite...
No seu abraço cúmplice,
Rio e choro sem fronteiras
Que não tracei.
Apago o tempo dos outros,
Fecho-me neste instante
De nós...
Abandono-me às tuas mãos sedentas,
Destruo as paredes do mundo,
E mergulho em ti!
Estremeces,
Em sintonia com o meu desejo,
E o teu prazer chora.
Aceso,
No lume que te queima as entranhas,
Desces sobre os meus suspiros!
E deixo as tuas mãos envolverem-me!...
Num passeio perfumado,
Deslizam,
Flutuam,
No mundo mágico da imaginação!

quinta-feira, 15 de março de 2007

Ausência



Na distância de um sonho,
Cravo o meu desejo na tua ausência!
Seguras-me o deslizar do meu corpo no teu
E travas o meu ondular de serpente em ti.
Ofereço os meus seios à brisa dos teus suspiros
E recolho a paixão na ponta dos teus dedos!
Quando chega até mim o aroma do teu desejo,
Misturo-o com o meu
E, embriagada,
Me ofereço!
Escorrego para dentro dos teus braços
E das tuas negações...
A minha pele exala perfumes desconhecidos,
Descontrolados,
Molhados,
E a minha língua lambe a distância que separa as nossas bocas!
Abro, então, as portas ao teu desejo,
Degustas-me impregnada de ti...

Espalhada por nós,
Eu decifro os teus movimentos
No emaranhado inexistente
Das nossas roupas aninhadas no chão!

quarta-feira, 14 de março de 2007

Quero-te



Pouso os lábios na curva do teu pescoço,
Aspiro-te,
Colho pedaços de ti,
Guardo-os na ponta da minha língua,
Saboreio-te de encontro ao meu palato!...
Solto um suspiro e exalo incenso!
Respira-me,
Colhe-me no hálito a paixão,
Devora-a
E perfuma-me a pele com o teu suor!
Toma-me,
Eleva-me do chão,
E sonha comigo um amor de céu!
Conserta a minha pele rasgada pela tua falta,
Costura as feridas que sangram de ausência,
Anestesia o meu ventre que dói no teu não!
Quero-te!...
Mas o sonho findou!

terça-feira, 13 de março de 2007

Deixa-me entrar


Penetro na noite através da lua nova,
Desfaleço, inquieta, de tanto sonhar...

Insinuo-me nos teus lençois
E não te encontro!
Em cansaços íntimos,
Desilusões famintas,
Evaporaste o amor que me perlava a fronte;
O coração continuou gemendo
E os olhos chorando...
Em vão!...

Trago-te para o sono desfeito,
Colho-te os lábios
E assomo à porta da tua alma.
Deixa-me entrar! – murmuro junto a ti.
Abre-se uma fresta,
Esgueiro-me por ela...
E possuo-te num frenesim de condenada!
Roubo-te a saliva, o suor e o sémen...
Quando me preparo para te assimilar a alma
Já não sei de ti!...

domingo, 11 de março de 2007

Contigo




No amanhecer dos meus olhos,
Abriu-se-me a alma…
Sem saberes,
Acordei abraçada a ti,
Renasci no caminho que pisei
E colei o meu corpo ao teu!
Sentes-me,
Lembras-te que existo em ti
Aspiras-me no teu perfume,
Recordas-te do que não fomos,
Desejas-me!
Mais do que dei um dia…

Hoje quando a tua noite
Fizer sossobrar o meu sol,
Grita ao vento que me não amas
E sente as minhas lágrimas cairem
Das nuvens do sonho,
Num amplexo final!...

sexta-feira, 9 de março de 2007

Tempo


No meu lago de águas escuras,
Quietas,
Sem vida,
Perdura à superfície lodosa
Uma ternura espelhada no infinito da eternidade!
Das minhas mãos transborda a minha alma
E o sofrimento faz-se doçura
Deslizando – me pelos dedos
Ansiosos de magias,
Loucuras,
Desatinos…

Para lá da minha pele,
Dos meus sentidos,
Da atracção inexplicável como um feitiço,
Transformo o amor em saudade…
E o meu desejo errante,
Nascido nos primórdios do tempo,
Flui na minha memória a caminho do futuro,
Futuro anulado
Porque, desde o início,
Este sonho viveu no passado!
Tento seduzir a roda do tempo,
Enganá-la…
Em vão…

O futuro e o presente confundiram-se…
Dessincronizados,
Abalaram ambos,
Numa corrida inversa,
Para o passado…

quinta-feira, 8 de março de 2007

Loucura




Cola o teu sonho ao meu,
Paira na sua leveza...

Sobre o meu aconchego
Toca-me com entoações de amor;
Entranha-te na minha pele,
Enlaça-me nos teus lábios,
Escorrega pela minha paixão...

E num céu de inexactidões
Dança comigo os ritmos da minha fome!
Completa comigo uma sinfonia,
Dirige a orquestra dos meus sentidos...

E numa sintonia de desejos
Entoa as nossas emoções,
Toca de improviso
A sequência que vou inventando,
Vem ser o maestro da minha loucura!

quarta-feira, 7 de março de 2007

A minha criação




No emaranhado indistinto das vielas do sonho
Perco o rumo,
Perco o caminho que tracei de mim para ti...
Desapareço da ilusão que sonhei em ti.
Abandono a minha criação,
Mas herdarás de mim
As palavras lançadas ao mar da minha paixão,
Os momentos vividos nos braços da solidão
E a minha mão soltando a tua...

E eu
Nos lábios levarei o segredo,
Na voz, o silêncio,
Na pele, o teu cheiro
E, em cada amanhecer,
Uma alma branca!
Levarei…
Levarei!...

terça-feira, 6 de março de 2007

Caminho


Em breves passos por ruas incertas
Prosseguia…
A energia da alma esvoaçava da minha mente
Para lugares desconhecidos
(Ou inóspitos?)
Onde os meus dedos não chegaram…

Dessedento a lógica,
Sacio a razão…
Debalde!
A minha alma está só,
Alimenta-se na ausência!
E na minha caminhada nocturna
Calco as estrelas no trilho da saudade,
Deslizo pelas avenidas do meu sonho…
Procuro-te nas avenidas das minhas veias,
Invento-te em mim ao som dos meus passos…
Sigo-te,
Dobro as esquinas do teu corpo,
Bato à porta da tua boca,
Penetro-te!
Entrego-te o lume dos meus desejos,
Consumo o teu corpo em carícias desmedidas,
Preencho-te cada recanto de pele macia,
Sopro-te fantasias ao ouvido,
Incendeio os teus fantasmas…

E quando os teus lábios devoram a minha luxúria
Sais de ti,
Entras em mim
Numa madrugada infinita
De prazeres proibidos!
Esqueço os caminhos, as avenidas, as vielas…
Só sei o caminho do amor em ti!

sábado, 3 de março de 2007

Enigma




Disfarçadamente,
Insinuo-me por entre as franjas do tempo...
Entre as fronteiras do passado e do futuro
Consigo encontrar-te,
Sombra luminosa de ti
Reflectida na tela da minha imaginação...

Do outro lado me escondo e dispo a alma.
Cubro-me com as vestes solitárias de uma noite sem estrelas!
Procuro descolar as minhas asas,
Readquirir o meu brilho...
Vejo-te ainda e caminho para ti!
Vens sorrindo,
Trazes nas mãos o enigma de ti,
Eu levo na pele a resposta que não aceitas.
Por instantes que valem séculos
O meu coração palpita,
Parte para te colher...

Uma doce ansiedade provoca-me arrepios de lume,
Derrubo o espaço e cruzo o teu céu!...
Mas o fino véu que me separa de ti
Torna-se a minha mortalha!
Encontro-te dentro de mim...
Para te sentir partir...

quinta-feira, 1 de março de 2007

Páginas vazias de nós


Construo um livro
De páginas vazias de nós...

Cada dia,
As minhas mãos dementes
Inventam e moldam
Mais uma página...
Empurro os teus impulsos
Para dentro de cada uma;
Roubo ao silêncio da tua boca
Frases que me apetecem
No fecho de capítulo...

Absorvo-te na chama que arde em mim
E, com o estilete da alma,
Desenho nos teus ouvidos
Desafios,
Canções
E ilusões.

Voo para lá de cada página,
Numa tentação indecifrável,
E procuro que as tuas mãos
Me prendam ao teu cheiro,
Me desfaçam as confissões
Que projecto em cada linha
Escrita sem nós!

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Ilusão de óptica




Este é o meu desejo dissimulado,
O meu devaneio inquietante,
A minha demagogia...

Em metáforas abusivas
E flocos de poesia soltos ao vento,
Perco-me por aí sem encontrar a tua rima.
Junto palavras e invento cores na minha alma,
Tento decifrar-te nas entrelinhas,
Mas apenas encontro,
Na carícia das letras,
Pedaços de ti,
Das tuas mãos macias,
Dos teus lábios quentes...

E frases apetecidas desenham-se
Em capítulos que o Infinito escreve.

Roço os meus olhos alucinados por cada uma.

E têm todas o mesmo traço e o mesmo gosto!
Numa ilusão de óptica,
Apenas dizem”amo-te muito”!...

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Noite


Depois de fins,
Copiados de não começos,
Foste o meu início perdido.

Encontrei-te na sombra da minha noite!
Entre sonhos me prendi a ti,
Em cumplicidades inesperadas me fiz tua…
Envolvida numa explosão de luz e sentimemnto,
Ateei fogo à minha paixão,
Abri o meu silêncio secreto,
Fechado no livro da alma.

Num mundo só meu
Conjuguei a dor de amar
Em tempo e modo só meus.
Inventei a paixão…
À imagem da tua proximidade!

E agora contemplo de novo a noite,
Tento esquecer o caminho que me conduziu a ti,
Atravesso o tempo…
No teu pensamento
Traço o início da eternidade…
E no meu querer
A intensidade do amor tatua a minha paz!

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Destroços



Rastejo no vazio,
Procuro a luz da tua mão,
As respostas às perguntas que não fiz…
A dor empurra-me,
Não tenho forças…
De encontro ao chão sufoco,
Não consigo pensar!
As lágrimas esvaziaram-me a alma!
O sofrimento alongou o tempo
E o discernimento ficou soterrado
Sob o monturo de escombros
Das paredes que o Amor não construiu!
Olhei de perto os destroços…
Lenta e sofrida, olhei-os de perto.
Ao teu lado,
Feri as minhas mãos de fantasia
Na tentativa de reconstrução.
Não pude!
O fim anunciado inundou-me.
Fiquei presa nos despojos do passado!
Estendi a mão
Num pedido mudo de socorro.
Não ma seguraste.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Saciada

Desenho-te na tela branca da vida
Com os meus dedos de saudade!
Traço-te o contorno do corpo
E da alma que não sei!
Incandesce o corpo,
Arrefece a alma!
Derretem-se os sentidos
E a minha noite ganha luz!
Na minha face,
Os teus cabelos sussurram melodias
E nas minha mãos,
A tua noite gelada queima!
Chamo a tua boca com um corpo que estremece
Ondulante,
Colado,
Molhado!
E colho teus segredos maduros
Como frutos doces,
Suculentos,
Em que me sacio!
Saciada,
Liberto-me em ti!
E tu em mim!

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Mais perto



Na voz rouca do mar,
Escuto o teu sussurro,
Personagem de ti
Com poder mágico de te evocar!

Forças desconhecidas de almas despedaçadas
Unem cada elo codificado
À deriva no Cruzeiro do Sul!

À frente dos nossos olhos
Aparecemos feitos de loucura
Em momentos criados no vazio da noite
Numa solidão repleta de nós!

Falamos com as estrelas,
O vento e a lua,
Ouvimos o riso das gaivotas e das piranhas...

Aí,
Longe de tudo,
Somos...
Mais perto de nós!

sábado, 17 de fevereiro de 2007

A porta do tempo

Fecho a mão dentro do sonho,
Abro-a dentro do destino,
Ofereço-a ao enigma da tua vida!
Mas no cume dos teus olhos
Desapareço à sombra da sua luz!
Abro a porta do teu tempo,
Oleio as fechaduras enferrujadas
E entro de semblante pintado de dúvida...
Penduro-te nos cabelos estrelas de luz,
Cubro-te o peito de prefácios de prazer
E assombro-te a alma com as cortinas do meu corpo!
Com o vento macio dos meus lábios
Refresco-te a carne do sonho
E faço voar as tuas asas presas à razão...
No estilhaço do momento,
Perdemo-nos além - corpo,
Além - alma
Além - tudo!

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Futuro


Sob a alucinação do brilho intemporal dos teus olhos
Perco-me num caminho bordejado por estrelas
Atapetado por carícias
Acordadas,
Lentas na madrugada!
Sopro nos teus lábios o silêncio,
Encanto-te com palavras de fogo
E abraço-me aos teus lençóis que não conheço!
Na nossa paixão,
Beijo-te sem saberes,
Guardo lembranças inexistentes
De instantes de loucura!
Estremeces nos meus sussurros
Na loucura doce dos meus seios!
A minha saliva queima a tua língua
E apagas o ardor nas minhas coxas,
No meu corpo aberto,
Franqueado,
Flor para ti!
Habitas cada entranha minha
És meu no infinito do tempo
Dentro de mim...
Para lá da saudade,

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Amante

A lua desce suave
Terna como um amante…
Ofereço-lhe o corpo
Para que desça sobre mim!
A sua luz espalha-se dando cor à minha pele,
Rolo,
Enrolo,
Rebolo sobre ela
Mas só te quero a ti!
Vem tomar os seus dedos de luar
Desce tu sobre o meu corpo!
Onde estás?
Perdi-te para quem?
Para quê?
Eu continuo aqui,
Sem ti,
Abandonada aos dedos da lua
Ela me possui em teu lugar!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Parados no tempo

As luzes invadem o nosso quarto,
Espreitam da rua,
Curiosas...
Fecho as cortinas,
E na penumbra que nos envolve,
Procuras-me,
Testemunha do teu momento de paixão!
Sobre a cama imensa,
Encontras-me...
A música que nos invade
Vinda da rua ou de nós mesmos
Domina a atmosfera pesada de desejo...
Os nossos corpos não querem dormir,
Apenas amar,
Amar como se nunca nos tivéssemos amado!
Tombada sobre os lençóis de seda,
Escorrego para o teu corpo,
Toco-te,
Quero-te,
Beijo-te...
E, na imensidão do céu que nos espia,
Deslizas sobre mim!
O ritmo alucinado de dois corpos que se unem
Guia – nos o prazer!
Para além dos continentes e oceanos,
Sou tua,
És meu!
Devoras-me em beijos de línguas húmidas...
Deixas em mim a seiva que o meu corpo colhe...
Possuo-te em cada espasmo!
Dou-me em cada contracção!
A luz baixa sobre os nossos corpos suados,
Parados para o tempo!

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Ânsia

Vem contar-me uma história de amor
Ao ouvido da minha Paixão!
Escreve na minha pele,
Com teus dedos de mel,
Um conto de fadas!
E no primeiro raio de sol
Que poise nas águas azuis do meu mar
Enviarei esta miragem
Que suspirará ao teu toque!
E, quando os teus olhos me sonharem,
Envolverei o teu rosto nas minhas mãos,
Regarei de perfume o meu perfil
E o vento te levará o meu rasto!
Escorregarei na areia quente do teu peito,
As gaivotas te levarão o ardor dos meus lábios
E a minha ânsia de me inundar de ti!

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Trajecto


Selo os murmúrios
Nas palavras esquecidas,
E pinto nas minhas tintas
A desilusão da minha pele perdendo a tua!

Lava-me a chuva quente
Das noites sem lua,
Do cheiro a citrinos
Extasiando a minha pele,
Acariciada por beijos esquecidos,
Perdidos
Sem trajecto definido nas tuas mãos!

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

A minha noite

Solto-me em visões,
Confesso-me em mistérios
De lua Cheia...

Procuro-te entre o Tempo,
Em nebulosas que desconheço,
Numa intensidade de sussurros,
Em mudos apelos!
E no céu que te ofereço
Sopro letras e palavras
Cúmplices dos meus lábios!
Passeio-me sobre um amor
Feito de melodias insensatas,
Centelhas de desconhecido
Fechadas num mundo que não conheço...

E, no início de nós,
Encontro-te na eternidade
De um luar
Aberto sobre a terra,
No céu da minha noite sem estrelas!

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Amo-te


Chamam-me do lado de lá,
Do futuro adiado,
Espero...
Quero pensar, mas a voz continua,
Ou o seu eco!
Por favor, calem-se!
Quero pairar sobre mim,
Descobrir o que é este entranhar-me
Em sentimentos desconhecidos,
Estas emoções mágicas
De sonhos transformados em nuvem
Voando até ti!
Lancei as minhas palavras em letras soltas
Em bolas de sabão que sobem,
Sobem ...
Quando elas rebentam no ar,
As letras juntam-se num bailado,
E no céu apenas se lê:
Amo-te!
No azul, as letras fazem uma dança de roda!
Em todas as posições, dizem sempre o mesmo.
De mãos dadas,
Não mudam de posição,
Não se desencontram
E só se lê: amo-te!

Vento

Confinada ao ritmo do tempo que sei,
Afasto-me de ti...
No ar fica o perfume das tuas mãos
Dançando num teclado de estrelas
Enviando mensagens às minhas...
Assim, a saudade não tem cheiro
E as nossas peles não se dispersam
Num universo vazio de nós!
Fundidas,
Tocam melodias de ventos mansos,
Brisas suaves,
Levantando a orla da minha saia!
E nas minhas pernas perversas
Ele deixa recados de almas que não decifro,
Por demasiado loucas...
Gira-me em torno do corpo,
Lambe-me os joelhos...
E em cada segundo
Deixa uma espera
Que o futuro resolverá!

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Tempo

Não questiono a vigília,
Mas não a procuro...

Quando cruzo os céus e os mares
À procura de respostas,
Voo contigo
Num estado de delírio que me quiseste dar...

Não sei quem comanda o sonho
(Ou o sono)
Mas sei que torna a vigem mágica!

Vejo-te mudo
Através da vidraça empoeirada pelo tempo...
Esfumas-te por instantes
Num tempo para lá do tempo,
Tomas a forma de um corpo...

Revejo a tua face e o teu sorriso,
Reduzo a distância,
Nos teus braços,
Ao zero absoluto!

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Carícias



Não receio que me olhes,
Não receio que me tentes,
Me rodeies,
Me empurres,
Me puxes...

Não te fujo,
Não te enfrento...

Abandono-me
Às carícias quentes
Que se apoderam do meu pensamento,
No brilho das armadilhas que colocas no céu!
Cruzo o teu olhar
E a tua pele,
Passo pelas tuas partículas
E entranho-me em cada poro
Do teu ser.

Afago-te o gesto,
Apodero-me do teu momento...
E consumida de desejo
Possuo-te a alma!

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Lobo Antunes

Para libertar aqueles que não gostam de poesia, apresento um aperitivo ...

Leiam a obra!

“Conhecimento do Inferno” de António Lobo Antunes

• Narrador explicitamente identificado com o autor, vagueando pela descrição dos factos ocorridos no tempo “presente”, sentimentos, devaneios ou recordações, entre uma primeira pessoa (trechos onde se questiona violenta e intensamente sobre a sua profissão e o seu papel no mundo que o rodeia ou, simplesmente, mais emotivos) e uma terceira pessoa que se encarrega das descrições mais frias do quotidiano;
• Trechos claramente autobiográficos em parceria com outros que o narrador nos faz acreditar que o são, apesar de poderem ser ou não;
• Passagem de um narrador a outro de forma brusca, às vezes dentro da mesma frase;
• Não há uma acção, mas várias a decorrerem ao mesmo tempo e a serem chamadas quando o narrador bem entende;
• Riqueza de construção frásica, de mistura de sensações impensáveis. Podemos sentir os sons, apalpar sentimentos, ouvir cores...;

o Genericamente, poder-se-á dizer que o narrador fala essencialmente do seu trabalho como psiquiatra num hospital de loucos enquanto nos dá a conhecer as suas vivências em Angola no cumprimento da vida militar, as suas dúvidas acerca da profissão que exerce, das opiniões que oculta... Imagina-se, então, a manifestar os seus pensamentos. Os seus colegas passam a tratá-lo como um louco e ele sentirá na sua pele o que é o Inferno (a loucura e seu tratamento). Daí o título da obra.


Excertos de “Conhecimento do Inferno” de António Lobo Antunes

“O mar do Algarve é feito de cartão como nos cenários de teatro (...)” p.11
“Deitado na cama, abraçado à Luísa, via as cortinas agitarem-se na claridade fosforescente de uma aurora de celofane, e perguntava-se a si próprio, intrigado, se o amor que fazia não passava de um exercício frenético dedicado a um público inexistente(...)” p.12
“Ao fim do dia lambia a tua pele como as vacas o côncavo das rochas, essa teia de aranha esbranquiçada que o sol estende no ventre em desenhos concêntricos como o alcatrão na areia da vazante, e se prolonga até aos pelos do púbis num gesto inesperado de marisco.” P.13
“Saía da Quinta da Balaia na direcção de Lisboa” p.14
“Passou defronte do escritório da Balaia, junto ao campo de ténis e aos canteiros de flores amarelas cujas pétalas se abriam devagar à maneira de coxas no ginecologista, submissas e inertes entre os dedos enluvados do sol(...) “p.17
“Nunca mais esqueceria, pensou quando o portão da Quinta da Balaia surgiu no alto, aberto para a estrada de Albufeira, e se dirigiu devagar ao seu encontro, a casa de saúde na periferia de Lisboa que visitava com os pais no Natal (...) O Natal era para ele adolescentes disformes que se babavam em bancos de pau abrindo e fechando terriveis bocas sem dentes, velhas de bibe a requebrarem-se em acenos de cocotte, o som inlocalizável de um piano vertical hesitando uma valsa, a arrancar penas a Chopin como a um frango vivo.” p.18,19
“Procurou às cegas a garganta de Paul Simon no porta-luvas e introduziu-a na ranhura de caixa de esmolas do leitor de cassetes (...) “ p.20
”Foi em África, nos países dos Luchazes, que eu soube que em Lisboa não existia a noite” p.22
“ Um dia em que passeávamos no arame farpado, perto do posto de sentinela dos milícias agarrados como náufragos a antiquíssimos bacamartes inúteis, voltou-se para mim e declarou-me, no seu português reinventado, cheia de miraculosa frescura de uma redondilha de Bernardim, que em Lisboa a noite não havia, surpreso por eu chegar de Portugal e não conhecer essa evidência.” p.24
“E só em 1973, quando cheguei ao Hospital Miguel Bombarda para iniciar a longa travessia do inferno, verifiquei que a noite desaparece de facto da cidade, das praças, das ruas, dos jardins e dos cemitérios da cidade para se refugiar nos ângulos das enfermarias, como os morcegos, nos globos do tecto das enfermarias e nos velhos e esbeiçados armários de medicamentos, nos aparelhos de electrochoque, nos baldes de pensos (...)” p.27
“Saiu da Quinta da Balaia, (...) O meu país, decidiu, são os painéis de Nuno Gonçalves sob a impiedade da luz, faces secas e humildes talhadas sem simetria na madeira dos músculos (...)”p.29
“E lembrou-se do Algarve no Inverno(...) Lembrou-se do ar claro e frágil como vidro que as pétalas da chuva manchavam levemente à maneira de hálito de minúsculas bocas na janela, de Portimão afogada entre as nuvens e a ria no cinzento minucioso da tarde, em que os contornos de todas as fachadas surgem mais nítidos e precisos (...) empilhados uns sobre os outros numa desarrumação febril, das luzes de Portimão iguais a jóias falsas numa montra, sentámo-nos no restaurante, procurei com o meu sorriso a tua boca e desatámos a rir, por cima do bife, a alegria de nos descobrirmos mutuamente, de nos inventarmos, como as crianças. Um morse apaixonado de sinais. Lembrou-se de Portimão e da areia da Praia da Rocha no Inverno, (...) lembrou-se da Isabel a explicar que nunca tivera orgasmo, que sou frígida, que as relações sexuais não eram importantes para ela, que durante o casamento se deitava o mais longe possível do marido a fim de não tocar um corpo cuja inércia ansiosa a repelia, e depois, nessa noite, das pernas derramadas sobre a cama e dos gritos de cadelinha assustada do seu prazer, dos guinchos da cadelinha assustada por um milagre inesperado. Gosto tanto do teu peito, pensou a ultrapassar um tractor (...) gosto tanto do teu peito, do bico duro das tuas mamas e do espaço cavado e tenro que as separa, dos arames de fusíveis do púbis que encontro, enrolados, na banheira, e dos dedos dos pés bons de morder, de chupar, de lamber enquanto a tua cara se torce de cócegas ao longe, a dizer que não, de olhos fechados, na planície em desordem dos lençóis.” p.31
“O Hospital Miguel Bombarda, ex-convento, ex-colégio militar, ex-Manicómio Rilhafoles do Marechal Saldanha. É um edifício decrépito perto do Campo de Santana(...)” p.35
“Era em Junho ou Julho(...) de galões nos ombros, eu via desfilarem diante de mim os rapazes de Elvas que o Exército convocara, chamara, arregimentara para defenderem em África os fazendeiros do café, as prostitutas e os negociantes de explosivos, os que mandavam no País em nome de ideais confusos de opressão. Eu aguardava o meu próprio embarque contando os dias, as horas de prazer que me restavam decorando à pressa o teu corpo como um livro desconhecido antes do exame, e via, sentado à secretária, desfilarem diante de mim os rapazes de Elvas no ginásio fechado, que o fedor das virilhas, do excesso de pessoas e das roupas abandonadas no chão, empestava como o de um curro trágico e triste. Levantei-me a pretexto de urinar(...) As flores do quartel apodreciam ao sol no relento de amoníaco, no relento de pus das flores que agonizam, de caules inclinados para o chão em espirais pálidas de anemia, e das paredes escorria, como resina, a tinta que o calor liquefizera(...) Estive (...) a pensar que me haviam mandado a Elvas não para salvar pessoas da guerra mas para as enviar para a mata, mesmo os coxos, mesmo os marrecos, mesmo os surdos porque o dever patriótico não excluía ninguém, porque as Parcelas Sagradas do Ultramar necessitavam do sacrifício de todos, porque o Exército É O Espelho Da Nação, porque o Soldado Português É Tão Bom Como Os Melhores, porque o caralho da cona do minete do cabrão do broche da puta que os pariu, estive a ver, encostado a uma coluna de pedra rugosa os futuros heróis, os futuros mutilados, os futuros cadáveres(...) Voltei para o ginásio, sentei-me à secretária, levantei a cabeça e o meu nariz encontrava-se à altura de dezenas de pénis que rodeavam a mesa aguardando que os observasse, os medisse, os aprovasse para a morte. Não eram rostos, nem pescoços, nem ombros, nem torsos, eram dezenas e dezenas de enormes pénis murchos que se haviam acumulado ali na minha ausência, de testículos pendentes, de repulsivos pêlos escuros e compridos, dezenas de pénis quase encostados aos meus olhos em pânico a ameaçarem-me com as trombas moles das suas peles” p.43
“- O que faço aqui?
Perguntou-se ele olhando um homem que urinava ao sol, (...) porque não saio a correr o portão e me especializo em dentista, ou pediatra (...) “ p.48
“Estou em Auschwitz, pensou, estou em Auschwitz, fardado de SS, a escutar o discurso de boas-vindas do comandante do campo enquanto os judeus rodam lá fora no arame a tropeçarem na própria miséria e na própria fome, estou bem barbeado, (...) pertenço à raça superior dos carcereiros, dos capadores (...) e em vez de se revoltarem contra mim, as pessoas aceitam-me com consideração porque a Psiquiatria é a mais nobre das especialidades médicas e é necessário que existam prisões a fim de se possuir a ilusão imbecil de ser livre, de poder circular na praça de Albufeira esporeado por uma esposa autoritária, apavorado com o Sábado depois do jantar em que ela me devorará, na cam, com as gigantescas mandíbulas da vagina, obrigando-me a suar sobre a geleia do seu corpo a ginástica do desânimo conformado.” P.49
“(...) o tempo e as distâncias: um luxo que os asilados se não podiam consentir porque os amputávamos do passado e do futuro e os reduzíamos, por meio de injecções, de electrochoques, de comas de insulina, a bichos obedientes de expressões trituradas pelo desinteresse e pelo medo. De pé no meio das mesas aspirava o relento do urinol vizinho, em que se mijava contra placas de pedra ao longo das quais escorria, por intermédio de um sistema ferrugento de tubos, uma baba musgosa de água que arrastava molemente os cagalhões por um veio de cimento, na direcção de um ralo improvável: e pareceu-me, fitando as fezes que boiavam devagar, que elas giravam interminavelmente em círculo no asilo (...) empestando tudo do seu odor podre” p.175
“(...) os psiquiatras gostam dos defuntos, pensei, amam os defuntos com ternuras sequiosas de vampiro. Gostam de adormecer as pessoas com pílulas para a seguir se debruçarem sobre elas, a gargalharem em silêncio, imaginando-as mortas nos quartos das clínicas, a fim de lhes sugarem a alegria, a tristeza, o entusiasmo, a raiva, o desânimo das veias e as transformarem em bichos empalhados e lentos, de pupilas vazias, indiferentes a tudo, babando-se nas salas de convívio (...) p.192
“Tinha o rosto de agora, o que encontro de repente, surpreendido nos espelhos, estúpido, melancólico, bovino, o rosto mole e envelhecido de agora, a boca, as rugas, as madeixas quebradiças, o rosto idiotamente sabido de psiquiatra que uma barba de musgo sombreia, o meu rosto pateta de carrasco.
O rosto opaco de ouvir em silêncio, doutamente, de falar doutamente do sofrimento alheio, indispensável ao sofrimento alheio, o rosto de me esconder atrás de mim a espiar a tristeza dos outros, a alegria dos outros, a ansiedade dos outros, o rosto que se esvaziava quando as consultas terminavam e se torna grotesco e oco como as máscaras de carnaval numa montra (...) p.194
“(...) de todos os médicos que conheci os psicanalistas, congregação de padres laicos com bíblia, ofícios e fiéis, formam a mais sinistra, a mais ridícula, a mais doentia das espécies. Enquanto os psiquiatras da pílula são pessoas simples, sem veredas, meros carrascos ingénuos reduzidos à guilhotina esquemática do electrochoque, os outros surgem armados de uma religião rigidamente hierarquizada, com os seus cardeais, os seus bispos, os seus cónegos, os seus seminaristas já precocemente graves e velhos, ensaiando nos conventos dos institutos um latim canhestro de aprendizes. Dividem o mundo das pessoas em duas categorias inconciliáveis, a dos analisados e a dos não analisados, ou seja, a dos cristãos e a dos ímpios, e nutrem pela segunda o infinito desprezo aristocrático que se reserva aos gentios, aos ainda não baptizados e aos que se recusam ao baptismo, a estenderem-se numa cama para narrarem a um prior calado as suas íntimas e secretas misérias, as suas vergonhas, os seus medos, os seus desgostos. Nada mais existe para ele no universo além de uma mãe e de um pai titânicos, gigantescos, quase cósmicos, e de um filho reduzido ao ânus, ao pénis e à boca, que mantém com estas duas criaturas insuportáveis uma relação insólita de que se acha excluída a espontaneidade e a alegria. Os acontecimentos sociais limitam-se aos estreitos sobressaltos dos primeiros seis meses de vida, e os psicanalistas continuam teimosamente agarrados ao antiquíssimo microscópio de Freud, que lhes permite observar um centímetro quadrado de epiderme enquanto o resto do corpo, longe deles, respira, palpita, pulsa, se sacode, protesta e movimenta.” p.205
“ – O que é que há de inquietante no orgasmo? (...)
– O orgasmo em Carcavelos, mergulhados no leite da mãe até ao pescoço, torna-se menos inquietante – disse eu. – Abre-se a boca para gemer e entra-nos um cagalhão pela garganta.
O psicanalista considerou-me com desprezo (...)
– Falismo adolescente, exibicionismo, desenfreada competição com o imago paterno – discursou ele (...) “ p.206/7
“Os internados da 8.ª enfermaria, à falta de mulher, penetravam às escondidas com o pénis as nádegas uns dos outros, ou masturbavam-se no refeitório, de boca aberta, manipulando com os pulsos desajeitados os tufos magros da braguilha. O orgasmo subia como uma onda, uma onda de merda, e recuava abandonando na areia das coxas uma espumazinha amarelada. Eu tinha os meus orgasmos em casa, depois do jantar e da boite, com Shirley Bassey a cantar-me baixinho ao ouvido cumplicidades de violinos. Ficava a fumar estendido de costas nos lençóis procurando com a mão o JB sem água que a mãe, a mulher, ou os filhos de um internado lhe haviam oferecido dias antes embrulhado em papel de seda, no intuito de amaciar a pergunta
- Que tal está ele, senhor doutor?
que se não atreviam a fazer porque os médicos são pessoas demasiado importantes (...) esqueciam-se no momento seguinte das suas promessas, entretidos a discutir a última novidade psiquiátrica de Paris, de Londres, de Chicago, de Nova Iorque, e a última teoria, o último medicamento destinado a eliminar a inquietação do orgasmo.”p.211
“ Não percebiam que a única coisa a fazer era destruir o hospital, destruir fisicamente o hospital, os muros leprosos, os claustros, os clubes, a horta, a sinistra organização concentracionária da loucura a pesada e hedionda burocratização da angústia, e começar do princípio, noutro local, de uma outra forma, a combater o sofrimento, a ansiedade, a depressão, a mania. “ p.230
“Estou numa sala enorme cheia de camas vazias (...) tenho uma mesa de cabeceira de ferro com um prato de alumínio em cima a servir de cinzeiro, afasto a roupa para me levantar, os lençóis, o cobertor, a colcha rota, começo a erguer-me, o corpo inteiriçado recusa-se a mover, não me obedece, procuro apoiar-me nos varões, a mão escorrega, o soalho aproxima-se de súbito de mim, devo ter batido com a cara mas não sinto a dor (...) Puxam-me para cima, sentam-me no colchão, a cabeça rodopia-me, gira, as ideias confundem-se, como é que me chamo, que dia é hoje, quantos anos tenho, lembro-me vagamente da empregada do especialista a guardar as notas na gaveta(...) O arame que me introduziram nas nádegas continua a doer-me, dois filamentos de ácido que me prendem os músculos, um fulano quadrado, de pijama, assiste a chupar um charuto de jornal. O da bata pede-lhe Traz-me mais compressas e o frasco de álcool, e para mim Põe o queixo no ar como se fosses uma foca. Quero ir para casa digo eu, quero ir para casa agora, quero chegar a casa, tomar banho, mudar de roupa, lavar os dentes, esperar que chegues lendo o Stefan Zweig no escritório, ouvir o ruído da loiça na cozinha, farejar o cheiro da comida, enterrar a cara no vapor de sauna do caldo verde, apetecer-me cantar. Mais uns diazitos na suite e levas alta, garante a bata. Porque é que não me posso ir embora já pergunto eu, e reparo que a minha voz soa lenta e difícil, a língua enrola-se-me, viscosa, nas gengivas. Ora aponta lá o queixozinho para o tecto resmunga a bata” p. 242, 243
“Por qualquer motivo que desconheço moro num sonho inventado com chuva verdadeira dentro. A chuva vai desbotar o meu rosto, vai desbotar os meus olhos, vai desbotar o meu cabelo como tudo aqui está desbotado, as pessoas, as paredes, os lençóis, as palavras. Então como vai isso diz alguém jovial nas minhas costas. Palmada no ombro. Inicio a difícil manobra de voltar-me. Isso é que tem sido descansar estás para aí podre de sono insiste a voz, trouxemos-te uns miminhos para adoçar a boca. Consigo rodar o corpo e eis a família de pé à cabeceira, risonha, amável, condescendente, terna, Que óptimo aspecto que tu tens. Quero responder e as frases não se soltam, agarradas ao céu da boca como caramelos Levem-me para casa. O meu irmão diz A gente não te afiançava que precisavas de repouso ora vai-te ver ao espelho e repara na diferença” p.244
“O enfermeiro vem buscar-me O médico quer falar contigo. Não quero ir ao médico, digo eu, não quero que me façam como àquele. Acho-me fraco de mais, o corpo não me obedece, os membros bambos oscilam, tropeço num corredor húmido e escuro onde há gente que espera sussurrando baixinho encostada à parede. (...) Que remédio me deram inquiro eu. Você estava excitado e fomos obrigados a sedá-lo um bocadinho, diz ela,(...) É mais um dia ou dois e pronto, diz ela, vai-se embora. Não acredito em si, digo eu, fecharam-me aqui para me matarem. Que ideia diz ela, isto é um hospital não é uma câmara de gás. As câmaras de gás nunca se parecem com câmaras de gás, digo eu, a senhora toma-me por parvo. Eu não o tomo por parvo, diz ela, você é que está aflito: seria bom que descobríssemos o motivo por que está aflito não acha?” p. 246
“A médica torna a coçar a cabeça com a esferográfica: continua delirante, diz ela, vamos ter de esperar mais algum tempo. Em todo o caso a medicação atira-o bastante abaixo, diz o enfermeiro, dormiu quarenta e oito horas só com uma seringa. (...) Talvez alterar aí a papeleta, diz o enfermeiro, enfiar-lhe uma droga diferente. Acho-o sobretudo ansioso diz a médica. Não estou ansioso, digo eu, quero é pôr-me no pira.” p. 247
“Alça, diz-me o enfermeiro, vamos voltar para o oó. (...) O enfermeiro ajuda-me a deitar, puxa-me a roupa para cima, fico a olhar o tecto, os grandes globos de vidro despolido, o arquipélago de nódoas de estuque, as minhas pupilas viajam como insectos na superfície clara, de tempos a tempos um condenado passa por mim a arrastar as pernas no soalho (...)”p.248
“mal me dei conta de o meu pai se levantar, apagar a luz e (...) triste me puxar o lençol, para cima da cabeça, como um sudário” p.315